Quantos anos tem o seu coração?
Existe uma conta que cardiologista faz na consulta e quase ninguém conhece fora do consultório. Ela pega os seus números e responde uma pergunta só: de que idade é o coração de uma pessoa que corre o mesmo risco que você. Se der mais que a sua idade, a diferença é o que o dia a dia cobrou até aqui.
Começa sem exame nenhum. Se você tiver um exame de sangue recente à mão, dois valores dele deixam a conta mais precisa, e cinco perguntas a mais abrem o seu risco de diabetes.
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Responda o que você sabe de cabeça
Idade, peso, altura, pressão, cigarro e diabetes. Nada aqui precisa de exame.
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Aprofunde, se quiser
Dois valores do seu último exame de sangue trocam a conta por uma versão mais precisa, e cinco perguntas abrem o risco de diabetes.
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Simule uma mudança
Marque o que você mudaria e veja quantos anos de coração aquilo devolveria.
As contas não são nossas. A do coração é o Escore de Risco Global de Framingham, publicado na revista Circulation em 2008 e adotado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia na diretriz de prevenção. A do diabetes é o FINDRISC, validado para o português do Brasil e usado em campanhas de rastreamento do Ministério da Saúde.
O que você sabe de cabeça
Sete respostas, nenhuma delas dependendo de exame. Se não souber a sua pressão, marque a caixa embaixo do campo e siga: não saber a própria pressão já é, por si só, um achado.
Você é homem ou mulher?
As contas têm pesos diferentes para cada um, por isso a pergunta.
Quantos anos você tem?
Estas contas foram construídas e testadas para a faixa de 30 a 74 anos.
Quanto você pesa, e qual a sua altura?
Em quilos e em metros. Servem para uma conta simples entre os dois, o IMC, que sem exame de sangue entra no lugar do colesterol.
Qual a sua pressão, o número de cima?
É o primeiro número quando alguém mede a sua pressão. No famoso 12 por 8, o de cima é o 12, que aqui se escreve 120.
Você toma remédio para pressão?
Vale se você toma de forma contínua, mesmo que a pressão esteja controlada hoje.
Você fuma hoje?
Quem já parou responde não.
Algum médico já disse que você tem diabetes?
Diabetes já diagnosticado. Pré-diabetes ou suspeita não contam aqui.
Aprofunde, se quiser
Os dois blocos abaixo são opcionais e independentes. Pular qualquer um deles não impede o cálculo, só deixa o retrato mais raso.
Dois valores do seu exame de sangue
Sem eles, a conta usa o seu peso como substituto do colesterol, que é o jeito de funcionar sem laboratório. Com eles, a página troca para a versão laboratorial do mesmo escore, que é a que o cardiologista usa. Os dois estão em qualquer exame de rotina dos últimos meses.
Colesterol total
Em mg/dL.
HDL, o colesterol bom
Em mg/dL.
Cinco perguntas sobre rotina e família
São os itens que faltam para completar o FINDRISC, o escore de risco de diabetes. Junto com a idade, o peso e a pressão que você já respondeu, eles dizem a sua chance de desenvolver diabetes tipo 2 em dez anos.
Qual a sua circunferência abdominal?
Em centímetros, medida na altura do umbigo, com a fita rente ao corpo. Não é o número da calça.
Você se mexe pelo menos 30 minutos por dia?
Somando o dia inteiro. Caminhada rápida no trajeto conta.
Você come frutas, verduras ou legumes todos os dias?
Já detectaram açúcar alto no seu sangue alguma vez?
Em exame de rotina, durante uma doença ou numa gravidez.
Alguém na sua família tem ou teve diabetes?
Responda as sete perguntas do passo 1 para liberar o cálculo.
O que as contas devolveram
Ainda não calculamos nada. Preencha o passo 1 e clique em calcular: aqui vão aparecer três números.
Idade do seu coração
A idade de alguém que corre o mesmo risco que você, mas com tudo em ordem.
Infarto ou derrame em 10 anos
De cada 100 pessoas com o seu perfil, quantas tiveram um evento assim.
Diabetes em 10 anos
A chance de desenvolver diabetes tipo 2 na próxima década, pelo escore FINDRISC.
O que nem o exame de rotina enxerga
Mesmo com colesterol na mão, estas quatro verificações ficam de fora do check-up executivo padrão e de qualquer escore de risco. Não são exóticas nem caras, só não são pedidas.
Insulina de jejum, com HOMA-IR
O esforço que o seu corpo já faz para manter o açúcar normal. Esse esforço sobe anos antes de a glicemia se alterar, e é o estágio em que ainda dá para reverter. Quando o diabetes aparece no formulário acima, essa janela já passou.
Ponto de corte brasileiro de HOMA-IR acima de 2,7, estudo BRAMS com 1.203 adultos.
Lipoproteína(a)
Um risco cardiovascular herdado que não aparece no painel de colesterol comum e quase não responde a dieta nem a exercício. Nenhuma simulação desta página o corrige.
Elevada em cerca de 20% das pessoas, cerca de 90% genética, mede-se uma vez na vida. National Lipid Association, 2024.
PCR ultrassensível
Inflamação crônica de baixo grau, que não dói e não dá sintoma, mas prevê risco cardiovascular mesmo em quem tem colesterol baixo.
Ridker, Journal of the American College of Cardiology, 2016.
Avaliação de sono
Apneia obstrutiva, que é parar de respirar várias vezes por noite sem acordar e sem lembrar. É uma das causas tratáveis de pressão que não cede, justamente o número que mais pesa na conta acima.
32,8% dos adultos da cidade de São Paulo, estudo EPISONO, Sleep Medicine, 2010.
Por que simular é fácil e fazer não é
Você acabou de marcar duas caixas e tirar anos do seu coração na tela. No mundo real, essas mesmas caixas são as resoluções que você já tomou em algum primeiro de janeiro. O que falta nunca é informação, é manutenção.
E é exatamente isso que a evidência mostra. No Diabetes Prevention Program, publicado no New England Journal of Medicine em 2002 com 3.234 participantes de alto risco, a intervenção intensiva e continuada de estilo de vida reduziu a incidência de diabetes tipo 2 em 58% em cerca de três anos, resultado superior ao do medicamento, que reduziu 31%. O que produziu esse número não foi alguém saber o que fazer, foi alguém acompanhando mês a mês.
Um laudo de check-up faz o mesmo que esta página: informa. Informar não é cuidar, e é por isso que o seu número não muda de um ano para o outro.
Saber o que fazer custa dois minutos. Continuar fazendo é que custa, e é a única parte que conta.
O que mandamos é a camada que nenhuma das contas enxerga
Um material curto com as quatro verificações acima, o que pedir em cada uma, como ler o resultado sem se enganar com o selo de "dentro da referência", e as fontes de tudo. Seis minutos de leitura, e serve para a sua próxima consulta.
- Por que “normal” não quer dizer “ótimo pra você”
- As quatro verificações, uma a uma
- O que pedir, e o que fazer com o resultado
- As fontes, com estudo, ano e amostra
Depois que você calcular por você
Calcule de novo pensando nas duas ou três pessoas sem as quais a sua operação para. Mesma faixa etária, mesma rotina, mesmo hábito de empurrar a consulta para o ano que vem. Você não sabe a pressão de nenhuma delas.
Ver como a Gauss faz isso com timesComo as contas são feitas, e onde elas são frágeis
- A conta do coração. D'Agostino R.B. e colegas, General cardiovascular risk profile for use in primary care: the Framingham Heart Study, Circulation, 2008, volume 117, páginas 743 a 753. O artigo traz dois modelos: o de consultório, que usa o índice de massa corporal e dispensa exame, e o laboratorial, que usa colesterol total e HDL. Esta página usa o primeiro por padrão e troca automaticamente para o segundo quando você informa os dois valores. O desfecho previsto é evento cardiovascular em dez anos: morte coronariana, infarto, insuficiência coronariana, angina, acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório, doença arterial periférica ou insuficiência cardíaca.
- Uso no Brasil. A Sociedade Brasileira de Cardiologia adota o Escore de Risco Global, derivado desse mesmo trabalho, na sua diretriz de prevenção cardiovascular, incluindo o conceito de idade vascular.
- Faixas de risco cardiovascular. Pela Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia: risco baixo abaixo de 5%, intermediário de 5 a 20% em homens e de 5 a 10% em mulheres, e alto acima disso.
- Como a idade do coração é obtida. É a idade de uma pessoa com o mesmo risco previsto que o seu, mas com os demais fatores em nível ideal. Adotamos como ideal: índice de massa corporal 22,0 ou, na versão com exame, colesterol total 180 e HDL 45; pressão sistólica 125 sem medicação; não fumante; sem diabetes. Resolvemos a equação do escore para a idade, mantendo o seu risco fixo.
- Coeficientes, versão sem exame. Homens: logaritmo da idade 3,11296, do índice de massa corporal 0,79277, da pressão sem tratamento 1,85508, da pressão com tratamento 1,92672, tabagismo 0,70953, diabetes 0,53160, média do grupo 23,9388, sobrevida basal 0,88431. Mulheres: 2,72107, 0,51125, 2,81291, 2,88267, 0,61868, 0,77763, 26,0145 e 0,94833.
- Coeficientes, versão com exame. Homens: idade 3,06117, colesterol total 1,12370, HDL menos 0,93263, pressão sem tratamento 1,93303, com tratamento 1,99881, tabagismo 0,65451, diabetes 0,57367, média 23,9802, sobrevida basal 0,88936. Mulheres: 2,32888, 1,20904, menos 0,70833, 2,76157, 2,82263, 0,52873, 0,69154, 26,1931 e 0,95012. O risco exibido é limitado entre 1% e 30%, como no artigo original.
- A conta do diabetes. FINDRISC, escore de risco de diabetes de 0 a 26 pontos, traduzido, adaptado e validado para o português do Brasil com publicação no São Paulo Medical Journal, e recomendado pela Sociedade Brasileira de Diabetes e pelo Ministério da Saúde em campanhas de rastreamento. Faixas: abaixo de 7 pontos, 1 em 100; de 7 a 11, 1 em 25; de 12 a 14, 1 em 6; de 15 a 20, 1 em 3; acima de 20, 1 em 2. Os cortes de circunferência abdominal são 94 e 102 cm para homens, 80 e 88 cm para mulheres.
- O que as simulações fazem. Recalculam o escore trocando um fator pelo alvo clínico e mantendo todo o resto: índice de massa corporal 24,9, pressão sistólica 120, colesterol total 180 com HDL 45, ausência de tabagismo, ausência de diabetes. Mostram o efeito matemático no modelo, não uma promessa de resultado para você.
- O que nenhuma das contas vê. HOMA-IR: estudo BRAMS, Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, 2009. Lipoproteína(a): National Lipid Association, Journal of Clinical Lipidology, 2024. PCR ultrassensível: Ridker, Journal of the American College of Cardiology, 2016. Apneia do sono: estudo EPISONO, Sleep Medicine, 2010. Reversão com acompanhamento continuado: Diabetes Prevention Program, New England Journal of Medicine, 2002.
Onde isso é frágil, e preferimos dizer: Framingham foi derivado de uma população norte-americana, e estudos brasileiros mostram que escores de risco divergem entre si quando aplicados aqui. A versão sem exame é menos precisa que a laboratorial, por construção. O FINDRISC estima risco de diabetes tipo 2 e nada mais. Pressão informada de memória, sem aferição recente, vale pouco, e pressão deixada no valor padrão vale menos ainda. Nenhuma das contas considera histórico familiar de infarto, lipoproteína(a), inflamação, sono nem genética. O resultado é probabilidade de grupo aplicada ao seu perfil, nunca uma previsão sobre você. Isto não é diagnóstico e não substitui consulta médica.
A Gauss não faz exames e não coleta sangue. Os exames saem por pedido médico, pelo convênio ou pela rede que você já usa. O que a Gauss faz é a camada seguinte: analisar os resultados, ter um médico prescrevendo a partir desses dados, enviar o tratamento individual todos os meses e reavaliar.
